domingo, 24 de janeiro de 2010

Sugestões de leitura - "O velho que lia romances de amor"

O velho que lia romances de amor é uma das mais aclamadas obras do chileno Luís Sepúlveda, escritor já caracterizado pelo seu amor pela natureza e pela mãe-terra.

Nesta curta viagem de cento e dez páginas, somos convidados a conhecer a vida de António José Bolívar Proaño, à primeira vista apenas mais um colono da aldeia de El Idilio, no Brasil. No entanto, rapidamente percebemos que é muito mais que isso. O autor consegue agarrar numa personagem aparentemente simples, e dar-lhe um passado complexo, cheio de aventura e drama, que nos mantém interessados da primeira à última página.
O livro tem uma estrutura relativamente simples: começa por nos apresentar um pouco do que é exterior a António Bolívar, as circunstâncias em que vive, e com quem convive, e vai desenvolvendo a personagem ao longo do texto, alternando entre narrativas no passado e uma história no presente.
A linguagem simples, mas extremamente apelativa, faz-nos sentir como se cada frase fosse mais um hectare da Amazónia, enquanto a exploramos e isso apenas mostra a densidade com que o livro nos absorve.
É espantoso o quanto aprendemos sobre a natureza sobre como conviver com ela em apenas cento e dez páginas! O livro apresenta uma extraordinária capacidade descritiva, o que nos mantém agarrados e viciados na história, enquanto nos situamos nos “flashbacks” e tentamos compreender os planos e a maneira de pensar de António Proaño. Também a maneira como todas as outras personagens são apresentadas cria em nós um elo de ligação com elas tão profundo que nos faz sentir em casa durante toda a leitura.
Concluindo, O velho que lia romances de amor é uma prosa curta, cinematográfica, mas extremamente viciante, que nos obriga a parar apenas no fim. Recomendo a todos os apreciadores de literatura, e não só.

Filipe Cardoso

Sugestões de leitura - "Equador"

Equador, Miguel Sousa Tavares
Equador é um livro escrito por Miguel Sousa Tavares, jornalista e escritor nascido no Porto. Neste romance, ele leva-nos a embarcar numa aventura que começa na metrópole, estende-se até à Índia e termina no arquipélago de S. Tomé e Príncipe.
Na minha opinião, este livro é de fácil leitura. Conseguiu prender a minha atenção desde o início até ao fim. À medida que fui avançando nas páginas, fui ficando cada vez mais fascinado com a descrição da paisagem da ilha feita pelo narrador. A água quente da praia, o clima tropical húmido, a vegetação verde e a comida, todas essas coisas foram descritas de uma forma espectacular que me fez sentir como se estivesse lá a presenciar tudo. E a paisagem natural foi apenas uma das coisas que me encantou.
Um outro aspecto que me agradou foi a construção das personagens. E vou citar apenas algumas que acho importantes: Luís Valença e o casal inglês, David e Anne. Luís foi nomeado pelo rei de Portugal governador de S. Tomé e Príncipe. Ele viu-se obrigado a abandonar a sua carreira de advogado, deixar para trás a sua vida e os seus amigos para se aventurar numa terra conhecida como o “fim do mundo”. Este governador mal chegou, começou logo a deixar a sua marca, mostrando ser competente e lúcido. O que mais me agradou foi a sua decisão de defender dois trabalhadores que estavam a ser acusados de terem abandonado o seu posto de trabalho. Ele defendeu-os mesmo sabendo que a maior parte dos cidadãos brancos iria ver aquilo com maus olhos. Do meu ponto de vista, foi o seu alto sentido de justiça que o levou a correr esse risco.
Este episódio e o episódio do seu envolvimento com Anne, a mulher de David Jameson, iriam virar-se contra ele, deitando por terra a sua missão. Quando o seu romance com Anne foi descoberto, Luís viu-se entre a espada e a parede, pois os principais administradores das roças utilizaram isso para o chantagear. Não sabendo mais o que fazer para mudar o rumo que as coisas estavam a tomar e compreendendo que a promessa de levar uma vida de conto de fadas com Anne se revelara impossível, Luís Bernardo Valença decidiu pôr termo à sua vida por considerar não haver mais nada por que valesse realmente a pena viver e lutar.
Esta foi a parte que mais me desagradou nesta história. Digo isto porque me fez descobrir que aquela figura, aparentemente bem formada, inteligente e de fortes convicções, afinal era uma pessoa fraca e incapaz de suportar privações.

Alexandre

Sugestões de leitura - "A Árvore dos Segredos"

A Árvore dos Segredos

Sofia Solanas é uma menina criada num magnífico rancho nas pampas argentinas. Mimada, determinada, e amada por todos os que a rodeiam à excepção da mãe, Anna.
Sofia envolve-se apaixonadamente com o primo Santiago, mas, quando os pais descobrem, mandam-na para a Europa separando Sofia da pessoa que mais ama. Esta parte para a Europa sem nunca chegar a dizer a Santiago que esperava um filho dele, pelo que mais tarde, quando tem a criança, a deixa num orfanato e parte para Londres.
Os anos passam e cada um refaz a sua vida separadamente, até que um dia, 20 anos mais tarde, uma tragédia familiar faz Sofia regressar a Buenos Aires.
Santiago e Sofia não escondem a emoção que sentem, pois o amor destes foi horrivelmente proibido. Sofia aproveita a ocasião para contar que esperava um filho dele na altura em que os separaram.
Mais tarde, Sofia descobre que o seu filho e de Santiago está no rancho da família. Fora seu pai que mandara adoptá-lo e assumi-lo como filho da governanta. Ambos voltam para debaixo da árvore que viu este amor crescer e decidem não prejudicar as pessoas que amam ficando juntos. Sofia volta para Inglaterra levando um Ombu consigo para plantar lá.

Apreciação Crítica

A Árvore dos Segredos é um livro acessível a nível de escrita, está muito bem estruturado e mesmo a nível de pesquisa sobre a cultura da Argentina é fiel.
Em relação à história, eu pessoalmente gostei bastante, é narrada de forma contínua e coerente, ou seja, não fica parada sempre no mesmo ponto.
Elogio a autora pelo argumento do livro que foi assumido como um dos melhores por conceituados jornais ingleses.
Quanto à capa, falando da edição que foi lançada em Portugal, penso que está de acordo com a história uma vez que na capa tem uma rapariga e um cavalo, a mesma tem o cabelo solto, o que transmite uma sensação de liberdade que vai de encontro com a personagem “Sofia” que é caracterizada no início do romance.
Aconselho vivamente a lerem este livro porque é de facto uma boa história.

Hélia Sacramento

sábado, 16 de janeiro de 2010

Alguns excertos do livro O Professor, de Frank Mc Court

Para reflectir....

As escolas profissionais eram vistas por muita gente como um repositório de alunos mal preparados para os liceus académicos. Isso era uma atitude snobe. Às pessoas não interessava que milhares de jovens quisessem ser mecânicos de automóveis, esteticistas, maquinistas, electricistas, canalizadores ou carpinteiros. Que não quisessem ter a Reforma, a Guerra de 1812, Walt Whitman, o gosto pela arte, a vida sexual da mosca da fruta a maçar-lhes a cabeça.
Mas, se temos mesmo de fazer isso, então façamo-lo. Vamos sentar-nos a ter essas aulas que não têm nada a ver com a nossa vida. Vamos trabalhar em lojas onde aprendemos o que é o mundo real e tentar ser simpáticos para os professores e safarmo-nos daqui ao fim de quatro anos! Puuf!
p. 26

Toda a gente dizia que, assim que recebesse o certificado, não teria problemas em arranjar trabalho. Quem é que queria um emprego daqueles? Tantas horas de trabalho, um ordenado tão baixo e quem é que nos agradecia por aturarmos os turbulentos miúdos americanos? Era por isso que o país estava sem professores.
pp. 71 e 72

Segundo as minhas contas, cerca de doze mil rapazes e raparigas, homens e mulheres, se sentaram a ouvir-me dar aulas, entoar cânticos, incitar, divagar, cantar, declamar, recitar, rezar e ficar sem palavras. Penso nessas doze mil pessoas e interrogo-me sobre o impacto que terei tido sobre elas. Depois penso no impacto que tiveram em mim.~
p. 83

Meu Deus! Numa oficina ninguém precisa de parágrafos para nada.
Se falarmos com agressividade ou rispidez, perdemo-los. É isso que, em geral, recebem dos pais e das escolas. Se contra-atacam com o seu silêncio, aquela turma está acabada para nós. (…) Eles sabem que o espectáculo dura quarenta e cinco minutos, nós contra eles, trinta e quatro adolescentes nova-iorquinos, os futuros mecânicos e operários da América.
p. 85

Aqueles pombos desavergonhados, indiferentes à excitação dos adolescentes da minha sala, copulam no parapeito da janela e isso é mais sedutor do que a melhor aula do melhor professor do mundo.
p. 87

Na escola McKee havia duas vezes por ano o Dia da Escola Aberta e a Noite da Escola Aberta, em que os pais iam à escola ver qual o desempenho dos filhos. Os professores recebiam os pais nas salas de aula, conversavam com eles e ouviam as suas queixas. (…) Nunca ninguém me ensinou como deveria lidar com os pais no Dia da Escola Aberta.
p. 87

Uma das coisas que eu estava a aprender era que os professores e os alunos têm de se manter unidos perante os pais, os supervisores e o mundo em geral.
p. 88

Estou a ficar irritado e com vontade de gritar, Porque é que são tão estúpidos? Nunca tiveram uma lição de gramática? Valha-me Deus, até eu tive aulas de gramática, e em irlandês. Porque é que eu tenho de aguentar isto, com um sol tão lindo e os pássaros a cantarem lá fora? (…) Há dias em que adoraria ir-me embora e bater com a porta…”
p. 94

Todas as turmas têm a sua química. Há turmas de que gostamos e às quais estamos sempre desejosos de dar aulas. Eles sabem que o professor gosta deles e, em recompensa, gostam do professor. Às vezes até lhe dizem que a aula foi muito boa e o professor sente-se nos píncaros. Isso dá-lhe energia e vontade de cantar no caminho para casa.
Há turma que nos dão vontade de apanhar o ferry boat para Manhattan e nunca mais voltar. Há uma espécie de hostilidade na forma como entram e saem da sala que não nos deixa dúvidas sobre a opinião que têm de nós. Mas pode ser imaginação nossa e tentamos descobrir uma maneira de os trazer para o nosso lado. Experimentamos dar aulas que resultam com outras turmas, mas nem mesmo isso resulta. Tudo por causa da tal química.
p. 95



Disse-lhes que tinham o direito de pensar pela sua própria cabeça.
Silêncio na sala de aula.
Não têm de engolir tudo o que vos digo. Ou o que qualquer outra pessoa vos diz. Podem fazer perguntas. Se não souber a resposta, podemos ir à biblioteca ou discutir a questão aqui.
Olham uns para os outros. Este homem diz coisas com piada, Diz que não temos de acreditar nele. Estamos aqui para aprender Inglês, para podermos passar. Temos de tirar o curso.
Queria ser o Grande Professor Libertador, obrigá-los a deixar de estar de joelhos depois de dias de trabalho árduo em escritórios ou fábricas, ajudá-los a libertarem-se das grilhetas, levá-los até ao cimo da montanha para poderem respirar o ar da liberdade. Quando as suas mentes estivessem libertas de frases feitas, ver-me-iam como o seu salvador.
A vida já era suficientemente dura para as pessoas daquela turma sem terem de ter um professor de Inglês a pregar-lhes que tinham de pensar e a maçá-los com perguntas.
Nós só queremos é sair daqui.
p. 140

Não ficamos comodamente sentados, percebe? Queremos subir cada vez mais. Quais são os seus planos a longo prazo?
Não sei. Vim para cá para ser professor.
Abanou a cabeça. Não conseguia perceber a minha falta de ambição. Tinha de ser mais dinâmico. Tinha sido graças a ele que aqueles quatro professores estavam a fazer cursos que lhe permitiriam subir e deixar de dar aulas. Foi o que ele disse. Porque haviam de passar o resto da vida na escola a aturar miúdos, se podiam andar pelos corredores do poder?
Tive um momento de coragem e perguntei-lhe, Se toda a gente subisse assim, quem é que dava aulas aos miúdos?
p. 143

Os reitores querem ordem, rotina, disciplina. Percorrem os corredores. Espreitam pelo vidro das portas das salas de aula. (…) Os bons professores não deixam o navio à deriva. Mantêm a disciplina e isso é uma coisa fundamental numa escola profissional de Nova Iorque, para onde, por vezes, os gangues trazem os seus problemas.
p. 171

É isto que acontece nas escolas públicas americanas: quanto mais nos afastamos da sala de aula, maior é a nossa recompensa, quer em termos profissionais, quer pessoais. Depois de obtermos o certificado, damos aulas durante dois ou três anos. Fazemos cursos de administração, supervisão, orientação escolar e, com os novos certificados, podemos passar para um gabinete com ar condicionado, casa de banho privativa, almoços demorados e secretárias. Não temos de aturar bandos de miúdos malcriados. Escondemo-nos no nosso gabinete e nem sequer temos de os ver, quanto mais aturá-los.
p. 180

Se pedíssemos aos alunos das nossas cinco turmas que escrevessem, cada um, um texto com trezentas e cinquenta palavras, ficaríamos com cento e setenta e cinco vezes trezentos e cinquenta, o que daria quarenta e trem mil setentas e cinquenta palavras que era preciso ler, corrigir, avaliar e classificar aos serões e aos fins-de-semana. E isso, se tivéssemos o bom senso de lhes dar apenas um trabalho por semana. (…) Todos os dias levava para casa livros e testes numa pasta castanha de imitação de pele. A minha intenção era sentar-me numa cadeira confortável e ler os testes mas, depois de dar aulas a cinco turmas, num total de cento e setenta e cinco adolescentes, não me apetecia nada prolongar o dia com os trabalhos deles.
pp. 211 e 212

Antes da Stuyvesant, era mais um mestre-escola do que professor. Gastava uma parte do tempo da aula com coisas de rotina e de disciplina: a mandá-los sentar e abrir os cadernos, a responder aos seus pedidos para irem à casa de banho, a lidar com as suas queixas. Mas, agora, já não tinha pela frente alunos irrequietos nem conflituosos.
Não havia queixas de que alguém tinha empurrado alguém ou tinha siso empurrado. Não havia sandes pelo ar. Não havia desculpas para não ensinar.
p. 228

Estava a encontrar a minha voz e o meu estilo de dar aulas. Estava a aprender a sentir-me bem na sala de aula. Tal como o Roger Goodman tinha feito, o novo chefe de departamento, Bill Ince, dava-me rédea solta para experimentar ideias novas sobre escrita e literatura, para criar o meu próprio ambiente na sala de aula, para fazer o que quisesse sem interferências burocráticas, e os meus alunos eram suficientemente maduros e tolerantes para me deixarem descobrir o meu caminho sem a ajuda da máscara nem da caneta encarnada.
p. 229

Desapreça sem deixar nenhum legado, apenas a recordação de um homem que transformou a sala de aula num recreio, numa sessão de rap e num fórum de terapia de grupo.
Porque não? Que se lixe. Pensando bem, para que servem as escolas? Pergunto-vos, será que compete ao professor fornecer carne para canhão ao complexo militar-industrial? Ou criar embalagens para a linha de montagem empresarial?
p. 237

A única coisa que lhes interessa é o sucesso e o dinheiro, o dinheiro, o dinheiro, diz a Connie. Têm grandes expectativas para os filhos, grandes ambições, e nós somos uma espécie de trabalhadores numa linha de montagem a pôr uma pequena peça aqui, outra ali, até sair o produto final, prontos a agradar aos pais e às empresas.
p. 261

Descobre o que gostas de fazer e faz. É tão simples quanto isso. Admito que nem sempre gostei de ensinar. Era demais para mim. Estamos sozinhos na sala de aula, um homem ou uma mulher com cinco turmas por dia, cinco turmas de adolescentes. Uma unidade de energia contra cento e setenta e cinco unidades de energia. Cento e setenta e cinco bombas-relógio. Temos de descobrir maneiras de salvarmos a vida. Eles podem gostar de nós, podem até adorar-nos, mas são jovens e a função dos jovens é expulsar os velhos do planeta. Sei que estou a exagerar mas é como um pugilista que vai para o ringue ou um toureiro que entra na arena. Podemos ser deitados ao tapete ou levar uma cornada, e é o fim da nossa carreira de professores. Mas, se persistirmos, aprendemos os truques. É difícil, mas temos de nos sentir à-vontade na sala de aula. Temos de ser egoístas. (…)
A sala de aula é um lugar de emoções fortes. Nunca saberemos o que fizemos pelas centenas de alunos que chegam e partem. Vemo-los a saírem da sala de aula: sonhadores, impávidos, trocistas, sorridentes, confusos. Ao fim de alguns anos, começamos a ter antenas. Percebemos quando conseguimos chegar até eles ou quando os afastamos. É química. É psicologia. É instinto animal. Estamos com os miúdos e, se quisermos mesmo ser professores, não há fuga possível. Não contes com a ajuda dos que fugiram à sala de aula, as pessoas dos gabinetes. Estão muito ocupados a almoçar e a desenvolver grandes ideias. És só tu e os miúdos. Pronto, a campainha. Até depois. Descobre o que gostas de fazer e faz.
pp. 283 e 284

Um olhar sobre o livro O Professor, de Frank McCourt

O PROFESSOR QUE AMAVA A ESCRITA

(pode ser consultado em www.educacao.ufrj.br/revista/indice/.../prof_amava_escrita.pdf )

Trata-se de um livro autobiográfico de Frank McCourt, norte-americano, nascido em 1930, que viveu na Irlanda até retornar aos Estados Unidos em busca de trabalho. Foi estivador, serviu ao exército americano na Alemanha, ganhou uma bolsa de estudos destinada a ex-militares e, com dificuldade, formou-se professor de inglês pela New York University. Sua carreira no magistério começou tarde, em New York, numa escola secundária profissionalizante, tentando ensinar literatura e gramática a futuros eletricistas, encanadores, mecânicos, esteticistas e cabeleireiras – garotada inquieta, com os hormônios explodindo, pronta para testar e dobrar qualquer professorzinho novato.
Após alguns anos de magistério, Frank fez mestrado e passou por uma breve e mal sucedida experiência no ensino superior. Iniciou, mas não conseguiu concluir, um doutorado em literatura, em Dublin. Retornou ao ensino médio profissionalizante. Trabalhou por algum tempo como substituto eventual, cobrindo faltas ou licenças de professores de várias matérias. Sua carreira ia ladeira abaixo, quando uma amiga convidou-o para trabalhar como substituto na conceituada Escola Secundária Stuyvesant, em Nova York, cujo concurso de seleção atraía milhares de candidatos ao ensino médio. Os aprovados eram a nata dos estudantes secundaristas, sérios, motivados, aplicados, que se preparavam para entrar nas melhores universidades. Nesta escola, Mc Court finalmente desabrochou: seu estilo diferente de ensinar, de incentivar a leitura e a escrita, foi reconhecido e apreciado. Ganhou uma vaga no quadro de professores. Além de inglês, ensinou “redação criativa", espécie de oficina literária na qual deu vazão à criatividade e ao talento para contar histórias.
Após 30 anos de magistério, McCourt encerrou sua carreira. Aposentado, aos 66 anos, fez algo que desejava há muito tempo: escreveu um romance sobre sua infância e juventudes miseráveis na Irlanda. Até então só havia publicado uns poucos artigos em revistas literárias.
Aconteceu o improvável: seu primeiro livro, Angela’s ashes, ganhou o Prêmio Pulitzer, o Prêmio do Círculo Nacional de Críticos, entre outros. O autor tornou-se uma celebridade nacional. Seu livro foi adaptado para o cinema e, em 1999, resultou num filme belíssimo, dirigido por Alan Parker e estrelado por Emma Thompson, cujo nome em português é As cinzas de Ângela.
Voltando a Ei, professor, Frank McCourt diz que entre todas as infâncias miseráveis nenhuma era pior que a dos católicos irlandeses, em Dublin, nas primeiras décadas do século XX. Sua história inclui pai alcoólatra, que desertou da família, irmãos que morreram à míngua de comida e remédios, muito frio, chuva e umidade, mãe implorando ajuda à igreja e sendo humilhada. Ao lado disso, a escola católica incutindo fundo a noção de pecado: o pecado original era lavado pela água do batismo, mas a alma infantil rapidamente se tornava suja. Cada criança era convidada pelo professor a dizer como tinha maculado a própria alma com um dos terríveis pecados capitais.
A história de vida de McCourt alimentou-o como escritor, mas antes disso deu- lhe material para as aulas. Quando ingressou no magistério, ficou perdido diante dos adolescentes novayorquinos, e o meio que encontrou para estabelecer contato, para comover, inspirar, interessar e intrigar seus alunos foi contar-lhes pedaços de sua vida. As narrativas orais provavelmente eram mais atraentes que a leitura dos textos literários previstos no programa e, sem dúvida, mais interessantes que a gramática. Assim que o professor anunciava um conteúdo escolar - os termos da oração, a análise do poema de fulano, o “significado profundo” do romance X - os alunos se punham a gemer, a suspirar, a resistir. Como forma de resistência, faziam perguntas ao professor, para provocá- lo a falar da Irlanda ou do seu passado de trabalhador braçal. Frank reconhecia nisso uma velha estratégia juvenil que ele próprio já havia usado - distrair o professor com assuntos fora do programa para evitar que desse aula. Mesmo assim, cedia aos pedidos e, com seu sotaque irlandês carregado, narrava o mundo da pobreza, da miséria e dos maus tratos para adolescentes americanos da classe trabalhadora, que tinham casas aquecidas, comida abundante, armários cheios de roupa, televisão, lanchonetes, quadras de esportes e brigas de gangues. Os
alunos ficavam atentos, faziam perguntas, dialogavam. No magistério, diz Mc Court, a história de sua vida salvou- lhe a vida.
A popularidade junto aos alunos vinha acompanhada de problemas com os supervisores e com os pais. Supervisores que visitavam salas de aula queriam ver alunos escrevendo, ou atentos ao professor, sentados corretamente, tomando notas e levantando a mão antes de fazer uma pergunta. E os alunos? Estes queriam conversar, atirar sanduíches uns nos outros, namorar, devanear, criar caso, ler e escrever o mínimo possível, arranjar desculpas para não apresentar os trabalhos e, se não fosse pedir muito, tirar boas notas. O tempo de escola era um interlúdio antes da entrada no mundo real do trabalho na fábrica e na oficina, do casamento, dos filhos, do divórcio, talvez de outro casamento, dos netos, da velhice. Afinal, por que aprender literatura e
gramática?
Os pais de alunos tinham opiniões diferentes. Apareciam nas reuniões para saber como estava indo o seu Stanley, se era respeitador, se estava aprendendo o necessário para tirar o diploma – aliás, professor, que história é essa de ficar lhes contando a história de sua infância infeliz? – perguntavam. E para que ele precisa aprender a soletrar usufruto, condigno e outras palavras que ninguém conhece?
Os professores veteranos eram pródigos em conselhos: não dê confiança aos alunos, não deixe que saibam coisa alguma a seu respeito, organize-se, transmita a matéria, corrija os exercícios, faça provas, use a caneta vermelha e o livro texto. Se algum aluno tem problemas, mande-o para o orientador pedagógico. Nós não somos psicólogos. Não temos tempo. Não temos nada a ver com isso.
Os professores da Universidade que ensinaram pedagogia e didática nunca falaram de situações insólitas, como sanduíches voadores, ou muito comuns, como garotos em crise de identidade, pais brutais, alunos desmotivados. Ensinavam a dar aulas, mas não sabiam dá-las.
Aos poucos, McCourt foi descobrindo seu jeito de ser professor de inglês e de incentivar alunos recalcitrantes a escrever. Por exemplo, bilhetes de desculpa.
Na escola norte-americana, é praxe os pais enviarem um bilhete justificando faltas, atrasos, deveres de casa e trabalhos não concluídos etc. De modo geral, é preciso ter o chamado bilhete de desculpa para entrar na escola após uma falta.
Um belo dia, enquanto os alunos estavam ocupados com uma prova, McCourt debruçou-se sobre a gaveta em que guardava os bilhetes de desculpas e começou a relê-lo. Já sabia que a maioria deles era escrita pelos próprios alunos.
A gaveta estava repleta de exemplos de um talento americano jamais mencionado em canções, em contos ou em estudos universitários. Como eu pude ignorar aquele tesouro, aquelas pepitas de ouro de ficção, fantasia, criatividade, grandiloqüência, autopiedade, problemas familiares, aquecedores que explodem, tetos que desabam, incêndios que consomem quarteirões inteiros, bebês e bichos de estimação que mijam no dever de casa, nascimentos inesperados, ataques do coração, doenças abortos, assaltos? Ali estava a escrita do ensino médio americano no que tinha de melhor - cruel, real, premente, clara, concisa, mentirosa.(p.93)
McCourt copiou e reproduziu uma série de bilhetes, omitindo os nomes dos autores, e distribuiuos, pedindo que os lessem em voz alta. “Quero que vocês entendam que esta é a primeira turma do mundo que estuda a arte do bilhete de desculpa, a primeira turma de todos os tempos a treinar a redação desses bilhetes” (p. 95). O professor, então, propôs que se imaginassem como adultos e escrevessem um bilhete de desculpa para uma filha de 15 anos por ter tirado notas ruins em inglês. Os alunos começaram a escrever com a maior disposição.
Terminada a tarefa, os alunos pediram mais. Mc Court propôs que escrevessem um bilhete de desculpas de Adão (ou de Eva) para Deus. A proposta foi acolhida com entusiasmo e a atividade se prolongou, com uma lista de personalidades cujas desculpas poderiam ser escritas: Judas, Átila, o Huno, Lee Harvey Oswald, Al Capone, políticos dos Estados Unidos.
Esse projeto foi um sucesso entre os alunos e até mesmo elogiado pelo supervisor, que
recomendou, no entanto, que o professor limitasse os personagens a figuras mais afastadas no tempo: Al Capone, por favor, não deveria ser contemplado.
Aos poucos, os achados de McCourt foram se multiplicando.
Na prestigiada Escola Secundária Stuyvesant, havia uma população heterogênea, não apenas imigrantes de primeira e segunda geração, como nas escolas profissionalizantes, mas também alunos de classe média e classe média alta. Mc Court foi convidado para ensinar redação criativa e inventou outras novidades. Para mostrar que é possível escrever sobre assuntos banais, provocava os alunos perguntando “o que você jantou ontem á noite?” Era o ponto de partida para
histórias que envolviam personagens - pai, mãe, irmãos -, seus modos de viver, seus conflitos.
Graças ao apoio do diretor, do supervisor e ao interesse dos alunos, Mc Court foi se afirmando. Conseguia agora entremear suas famosas narrativas com atividades de leitura e produção de textos. Os alunos criaram uma verdadeira novela a partir da oração “John foi à loja”. Tiveram aulas de redação baseadas em resenhas de restaurantes de uma jornalista especializada em gastronomia e aprenderam a escrever textos similares, que circularam extramuros, sobre os locais que freqüentavam: a lanchonete da escola, as pizzarias da vizinhança, os vendedores ambulantes. Entre outras novidades, Mc Court promoveu a leitura de receitas culinárias estrangeiras que soavam como poemas, com acompanhamento musical.
Tentou mostrar aos alunos interessados em escrever literatura que o escritor está sempre escrevendo.
Estamos escrevendo em todos os momentos da vida. Mesmo nos sonhos a gente está
escrevendo. Quando a gente caminha pelos corredores desta escola encontra diversas
pessoas no caminho e escreve ferozmente dentro da cabeça. Aí está o diretor. É
preciso tomar uma decisão, uma decisão sobre o cumprimento. Vou acenar com a
cabeça? Vou sorrir? Vou dizer, bom dia senhor Baumel? Ou vou simplesmente dizer,
Oi? (...) Há tantas maneiras de dizer oi. Murmurar, gorgear, latir, cantar, bramir, rir, tossir. Uma simples caminhadinha pelo corredor dá material para muitos parágrafos, muitas frases dentro da nossa cabeça, decisões aos montes.
Conclusão
Mc Court retratou, de modo íntimo e pessoal, sua carreira acidentada, sobre a qual refletiu com ironia e franqueza. Texto de leitura agradável, com uso abundante de discurso direto, Ei, professor não é um livro de pedagogia, não é prescritivo, não é acadêmico: é a narrativa inspirada de um bom escritor que foi também professor. O autor tem ouvido finíssimo para a língua oral, seus diálogos são brilhantes. A tradução, que mantém o tom coloquial, foi feita por Rubens Figueiredo, jovem e destacado escritor, também professor de língua portuguesa.
Além de ser uma biografia romanceada, o livro de McCourt é um depoimento curioso e crítico sobre o ensino médio em escolas públicas novayorquinas do fim dos anos 50 aos 80. Descreve o cotidiano das escolas, os rituais, as regras de convivência, as exigências do sistema em relação a alunos e professores, as injustiças, as picuinhas. Não o faz de maneira acadêmica. Narra incidentes da vida escolar de forma tão viva que os personagens ganham corpo e voz, como se os víssemos no cinema. Note-se que Mc Court não viveu o pesadelo atual de matanças ocorridas em escolas norte-americanas. Cita a preocupação dos pais de alunos da Escola Stuveysant com o
possível uso de drogas por seus filhos, fala de um ou outro aluno com problemas nessa área, mas o assunto não mobiliza sua atenção. A última escola em que trabalhou era uma ilha de excelência num sistema educacional que enfrentava e enfrenta problemas gravíssimos.
O autor fala com franqueza de seus conflitos: estava sempre dividido entre o dever de ensinar a matéria e o desejo pungente de dar aulas interessantes, de ser respeitado, amado e admirado pelos alunos. O que mais temia era a indiferença. Revela o sentimento de inferioridade que o perseguiu a vida toda, a consciência de classe como menino pobre na Irlanda, mais tarde trabalhador braçal em New York, e estudante mal sucedido, que não conseguiu acabar o doutorado. Há um pouco de autopiedade nos seus relatos, mas também muito humor. Mc Court não é e não se considera um modelo de professor. Às vezes, ficava saturado, com a cabeça tão
cheia de conversas juvenis que não sabia mais quem era ou o que desejava. Em outros
momentos, descobria-se ansioso para entrar na sala de aula, para continuar o que vinham fazendo de interessante ou propor alguma coisa nova.
Já sabemos que os alunos do ensino médio – no Brasil e nos Estados Unidos - em geral não querem ler os clássicos, desconfiam de textos literários, não imaginam que possam escrever.
Sobre estes assuntos, o modesto professor Mc Court tem algo a ensinar. Ninguém escreve com vontade se não tiver algo a dizer. O mundo está aí para ser lido e escrito, mas é preciso abrir os olhos para o inusitado que se esconde atrás do familiar. As pessoas podem se tornar autores, ou não, mas todos podem conhecer o encantamento da literatura. Como diz o autor na dedicatória:
“Cantem sua música, dancem sua dança, contem suas histórias.”
Marlene Carvalho

MC COURT, Frank. Ei, Professor. Tradução de Rubens Figueiredo. Rio de Janeiro: Editora
Intrínseca, 2006.

Início do livro O Professor, de Frank McCourt

“Aí vêm eles.

E eu não estou preparado.

Como poderia estar?

Sou um novo professor e estou a aprender, trabalhando.

No primeiro dia da minha carreira como professor, quase fui despedido por comer a sandes de um aluno de liceu. No segundo dia, quase fui despedido por mencionar a possibilidade de se ser amigo de uma ovelha. Tirando isto, não houve nada de especial nos quase trinta anos que andei pelas salas de aula dos liceus de Nova Iorque.
Perguntava muitas vezes a mim próprio se deveria estar ali. E no fim perguntei a mim próprio como é que me tinha aguentado tanto tempo.” (p. 23)

Sobre o livro O Professor, de Frank McCourt

«O ensino perdeu um professor mas o público ganhou um escritor.»
Kirkus Review

«Uma obra autobiográfica fascinante.»
Los Angeles Times

«Os muitos fãs de McCourt irão decerto adorar este livro, que também deveria constituir leitura obrigatória para todos os professores nos EUA.»
Publisher´s Weekly

«O Professor é uma despedida irresistível de um homem que encontra a sua voz na sala de aula, na escrita e na sua alma.»
The New York Times Book Review

«As últimas 50 páginas da terceira autobiografia de Frank McCourt é o melhor que alguma vez se escreveu sobre o ensino, a aprendizagem e sobre encontrar-se a si mesmo através da escrita.»
USA Today

«Uma história encantadora e comovente… McCourt descreve o professor que todos desejaríamos ter tido.»
Washington Post